Retomada das viagens deve priorizar lugares nas vizinhanças

Deserto do Saara? Viajou. No momento, vamos de Jalapão (TO). A savana africana deve abrir espaço para o Pantanal e a Amazônia, assim como a Europa deve ceder a vez a Campos do Jordão, cidades históricas mineiras e serras gaúcha e catarinense.

Foto da janelinha com vista lá do alto tende a baixar o foco e mirar paisagens captadas do banco de um automóvel.

Isso porque, de cada 10 brasileiros de passagem, hospedagem ou pacote de viagem na mão, 8 vão embarcar rumo ao Brasil pelo menos até o Réveillon, mostra estudo da Braztoa, associação das operadoras de turismo (69% delas já retomaram as vendas)

“Por ora, até mesmo os brasileiros acostumados com viagens internacionais vão optar por lugares no Brasil”, afirma Roberto Nedelciu, 59, presidente da entidade, que representa 90% das viagens de lazer comercializadas no país.

“Temos procura por países da Europa e Ásia e também pelos EUA, destinos que apresentam preços entre 40% e 60% mais em conta, porém, com embarque previsto somente para 2021”, diz ele.

Dona da Aromas da Montanha, pousada de charme em Tiradentes (MG), a agrônoma Rosana Negreiros, 60, explica que é preciso aprender como os outros países retomaram o turismo.

Ela vislumbra um retorno pautado em mudança de hábitos. O bufê de café da manhã, por exemplo, deixa de existir. Será servido no quarto do hóspede ou em espaços que garantam o distanciamento social. O uso de máscaras para o staff e clientes já faz parte da paisagem.

Por causa da pandemia, ela se mudou para a pousada com o marido, Mozart Alemão, 60. Trouxe a mãe dela, Leonilda, 89, para viver com eles.

O casal defende mudança de atitude, sobretudo, dos turistas e de empresários do setor.

Eventos como o encontro gastronômico e o de motoqueiros, dois dos principais festejos do calendário tiradentino, devem ser reduzidos para uma versão “intimista, em sintonia com o clima pacato do município”, diz Alemão.

Uma das cidades históricas mais bem preservadas do país, Tiradentes tem cerca de 8.000 habitantes.

Com pouca gente transitando por suas ruas de pedra do século 18, elas ganharam uma fina grama parecida com “um tapete verde”, descreve Rosana.

“É claro que pessoas fazem falta, mas, quando voltarem, terão que apreciar o silêncio e respeitar a história e a natureza locais”, diz a agrônoma. “O turismo de massa acabou.”

Para Magda Nassar, 57, presidente da Abav Nacional, associação que congrega 2.400 agências de viagens por todo o país, os passos para a retomada precisam ser cautelosos, porque não se sabe se o destino procurado hoje estará aberto ao turismo amanhã.

O retorno se dará por lugares no entorno do viajante. “Agora é o momento de o Brasil se mostrar protagonista.”

Neste instante de readequação, hotéis com limitação de hóspedes, sistema de alimentação e lazer controlado para um número menor de pessoas e atrações ao ar livre estão no catálogo da CVC, maior agência e operadora do país, que antes da pandemia de Covid-19 levava mais de 20 mil pessoas por dia para viajar.

Por enquanto, a empresa prevê que a retomada será gradual, a partir deste mês.

“Neste primeiro momento, os clientes tendem a preferir viagens próximas às suas residências”, avalia Leonel Andrade, presidente da CVC Corp.

Serra gaúcha, Nordeste, interior paulista e cidades históricas mineiras, assim como roteiros de luxo e charme, que exigem limitação de visitantes, podem ganhar preferência. O carro deve largar na frente como principal meio de transporte desta retomada.

Nascido e criado à beira-mar, o guia Júnior Tubarão, 30, fazia do barco seu instrumento de trabalho. Com a chegada do vírus, o turismo secou. Hoje, ele sobrevive com o auxílio de R$ 600 e da pesca. Segue, contudo, conectado à natureza de Galinhos, uma praia ainda intocada no norte do Rio Grande do Norte, onde carro não entra.

O braço de mar Aratuá, nome dado em homenagem aos aratus, caranguejos presentes ali em abundância, era o “escritório” de Tubarão, que servia de cenário para os passeios com tour gastronômico.

Dia desses, uma espécie rara pousou ali, a gaivota-bico-de-tesoura, conhecida como talha-mar. Ao mergulhar nas águas do Aratuá, o guia se deparou com uma outra surpresa: o fundo estava apinhado de cavalos-marinhos. “As abelhas também voltaram. O turista? A gente espera”, brinca.

E, quando voltar, precisa pisar ali com outro comportamento, avalia Daniel Barbosa, 33, guia de Maceió há dez anos. “As pessoas vão se desligar do celular e se conectar com as belezas da natureza, respeitando-as. Sem muvuca.”

Antes do sumiço dos visitantes, ele chegava a trabalhar com 300 turistas por semana. Em tempos de paralisia, usa o tempo livre para aulas de inglês, espanhol e guitarra.

Barbosa afirma não ter procurado ajuda do governo. “Muita gente carente precisa bem mais desses R$ 600.”

Sem renda, sacando as economias da poupança e vivendo com o auxílio do governo e de doações de cesta básica, Romildo Carlos Lopes, 54, guia há mais de 20 anos em Fernando de Noronha, lugar onde todo o mundo o conhece como Lombra, explica que a retomada deve ocorrer com preços menores na ilha.

Reconhece que os valores praticados ali costumavam assustar os visitantes. “Agora, não tem turista e ninguém tem dinheiro pra nada. Vai ter que baixar.”

Independentemente da máscara de proteção de uso obrigatório, uma coisa é certa: por mais higienizada que a peça de snorkel esteja, muitos vão preferir levar a sua quando saírem para mergulhar nas águas translúcidas do arquipélago pernambucano.

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